quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O ESTELIONATO ELEITORAL

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Era uma vez 2014. Quantas vezes você já ouviu essa expressão "estelionato eleitoral"? Ela foi usada exaustivamente pelos derrotados de 2014 para justificar a quarta derrota seguida do projeto neoliberal do PSDB. Mas a que se referia esse suposto estelionato?

A referência era feita aos números com os quais o PT trabalhava para avaliar o próprio governo. Números referentes a estimativas de crescimento, desemprego, consumo, obras de infraestrutura. Na prática, era uma discussão meramente entre o copo meio cheio e o copo meio vazio. 

Mas o fato é que o copo meio cheio que aparecia na propaganda do PT era contestado o tempo todo pela propaganda adversária e pelos maiores veículos de comunicação deste país: Globo, Editora Abril, Estadão, Folha, Jovem Pan... Então, na prática, o suposto estelionato só atingia quem queria ser atingido.

O Partido dos Trabalhadores disputou 7 eleições presidenciais. Perdeu 3, ganhou 4. Quando perdeu, apertou a mão dos vencedores e fez oposição, como manda o jogo democrático republicano. Quando ganhou, governou. Exceto em 2014...

Depois das eleições de 2014, o PSDB irresponsavelmente questionou o resultado. Chegou ao ridículo de pedir uma recontagem de votos. Tentou usar esse suposto "estelionato eleitoral" e um sem fim de denúncias para impedir a posse de Dilma. Depois, fez pior. Passou a boicotar o governo - e o país - no Congresso. Com o apoio de Eduardo Cunha, fizeram "Dilma sangrar", como prometera o Senador Alysio Nunes, também do PSDB, vice na chapa do Aécio. 

Com isso, atrasaram aprovação do orçamento e aprovaram gastos que o governo não podia fazer. Travaram recursos necessários para o funcionamento do país, enfim, sabotaram o governo. A conta caiu pra Dilma, que segurou a onda, afinal, isso faz parte do jogo democrático também. Dilma jamais cogitou fechar o Congresso. 

Depois o Congresso se mobilizou para derrubar a Presidente da República. Ela refutou as acusações, chamou de Golpe, repudiou. O povo foi às ruas a favor e contra o impeachment. A presidente foi retirada do cargo. Ela não recorreu a repressão contra as manifestações contra ela - pelo contrário, foi exemplar ao defender o direito à livre manifestação. Mesmo quando foi duramente ofendida na Copa do Mundo. 

O novo governo assumiu e botou em prática o projeto que havia sido derrotado na urnas 4 vezes consecutivas, com direito a José Serra, Aloysio Nunes, Bruno Araújo e uma leva de Demo-tucanos nos ministérios. O que o PT fez? Recorreu ao STF, à ONU e foi para a oposição a Michel Temer. Mesmo com todos os indícios de Golpe Parlamentar e Conspiração - "com o Supremo, com tudo" - o PT não se valeu do aparelho de repressão do Estado que estava sob seu poder. Respeitou as instituições e foi atrás dos seus direitos.

Como ato final, o PT teve seu maior líder preso, numa decisão controversa, que divide o mundo jurídico. Um cara com apoio popular tamanho, que mesmo pedindo para que as pessoas desobstruíssem a frente do Sindicato dos Metalúrgicos, elas não saíram. Lula levou a Polícia Federal para dentro do Sindicato e de lá saiu para seu cárcere. Jurando inocência e recorrendo às instâncias superiores, como fazem democratas republicanos.

Esse é o Partido dos Trabalhadores.

Chegamos a 2018. O PT não pôde lançar a candidatura de Lula, líder de TODAS as pesquisas de intenção de voto até setembro. Então escolheu um outro quadro de seu partido e seguiu o jogo. Conseguiu no voto a vaga no segundo turno para disputa com Jair Bolsonaro.

Bolsonaro, por sua vez, em um discurso histórico em 1992, ficou famoso ao conclamar, na tribuna da Câmara, em seu primeiro mandato, a volta dos militares. Fazia menos de uma década do fim da Ditadura, apenas 3 anos da primeira eleição direta para presidente e Bolsonaro urrava que os militares precisavam assumir novamente e fechar o Congresso.

Em 1999, Bolsonaro era oposição a Fernando Henrique Cardoso e deu uma entrevista catastrófica a um programa da TV Bandeirantes do Rio de Janeiro. Na entrevista, ele falava que as privatizações - que hoje ele defende - eram um roubo, a entrega do patrimônio brasileiro ao Capital estrangeiro. Dizia que votaria no Lula contra FHC, porque o Lula era honesto! 

Ele disse nessa entrevista que o presidente Fernando Henrique deveria ser fuzilado. Disse ser favorável à tortura, que o erro da ditadura foi torturar e não matar. Disse que se um dia fosse presidente, daria golpe no mesmo dia! Que o Congresso do qual ele ele fazia parte não servia para nada! Disse ainda que pelo voto não se muda nada no país, que as coisas infelizmente só mudariam quando nós partíssemos para uma guerra civil. E fazendo "o que regime militar não fez" - na verdade fez sim - "matando uns 30 mil". Disse que se morressem alguns inocentes, tudo bem, que ele até aceitaria morrer, mas desde que fossem uns muitos com ele.

Ainda assim, Bolsonaro não era conhecido. Isso porque ninguém nunca o levou a sério. Era um parlamentar isolado, sem base, não participava dos grandes debates, não tinha um eleitorado expressivo que valesse a pena disputar... Era como se Bolsonaro fosse só uma falha, um bug da democracia que todos concordavam em ignorar ou no máximo dar umas risadas de vez em quando.

Jair Bolsonaro só passou a ser relevante de uns anos pra cá. Eu duvido que vc já tivesse ouvido falar do Bolsonaro, por exemplo, antes de 2010. Pense em todos os outros 10 candidatos a eleição desse ano. Daciolo era nada, seguiu sendo nada. Amoedo era nada, foi novidade e fez uma graça. Eymael é candidato a presidente há um tempão. João Goulart Filho é filho de um dos maiores políticos da história do Brasil e não deu em nada... Boulos é do PSOL, que toda eleição lança um candidato que fala bem, mas não tem voto. Marina foi senadora, ministra e candidata de 20 milhões de votos duas vezes. Alckmin há 20 anos tava sendo reeleito governador de SP. Meirelles foi ministro de 3 presidentes diferentes. Ciro ajudou a construir o Plano Real, foi prefeito de capital, governador de estado. Haddad foi prefeito de SP, Ministro da Educação e era o substituto do Lula...

E o Bolsonaro?

Como é que esse cara que até duas eleições ninguém nunca tinha ouvido falar, que nunca foi prefeito de cidade nenhuma, que nunca nem disputou uma eleição de governo estadual, nem senado, que nunca foi ministro nem secretário, que foi candidato à presidência da Câmara no ano passado e só três votos além do dele, que não tem um discurso eloquente, que assume desconhecimento sobre vários assuntos... Como esse cara de repente parece um velho conhecido de todo mundo e aprece numa eleição dessas com 57 milhões de votos assim do nada???

Como é que esse cara que sempre foi isolado no Congresso se filia a um partido nanico e elege a segunda maior bancada da Câmara? Como é que esse cara sem base, de um partido nanico passou a ser parte do seu cotidiano com tanta frequência nos últimos dois anos?

Vou contar, pelo que eu consegui entender até agora... Bolsonaro foi fabricado! Ele foi fabricado pra preencher requisitos... Dos mais variados. Sabe por quem? Não? Nem eu! E isso me assusta. Porque, seja lá quem for, rackeou nossa democracia. 

Quem fez isso, usou informações roubadas de aplicativos como Facebook. Mas também jogos, apps de edição de imagens e vídeos, testes de futilidades que geram resultados engraçados... Tudo que existe na internet, praticamente, sabe onde você mora, o time que vc torce, sua religião, do que você tem medo, o que te faz rir, seus artistas favoritos, os lugares pra você viaja, os lugares onde vc faz check in, os lugares e as pessoas que você marca nas fotos...

Quem fez isso, usou informações roubadas pra direcionar conteúdos que fizessem as pessoas perceberem o Bolsonaro, se acostumar com ele, cogitar votar nele e, por fim, odiar a concorrência. 

É difícil convencer o eleitor do Bolsonaro, porque cada pessoa tem um motivo diferente. Mas quase todos tem duas coisas em comum: o ódio pelo PT e o embasamento em notícias falsas. 

E isso não é por burrice. Essas pessoas não têm culpa. Eu percebi isso com a história do Geraldo Azevedo ter sido torturado pelo Gen. Mourão. Realmente essa história não tinha cabimento, mas foi tão agradável aos opositores de Bolsonaro que serviu... E não foi por mal, coitado, o Geraldo se confundiu e induziu pessoas ao erro. Mas se fosse de propósito, teria funcionado. Muita gente acreditou nessa fake News de primeira, sem ponderar, porque ela era muito agradável para fins eleitorais.

Uma rede complexa e muito inteligente pra potencializar as pautas positivas e reverter as negativas. Quando o general Mourão falou em acabar com o décimo terceiro, Bolsonaro fez um vídeo prometendo décimo terceiro para o Bolsa Família. Com o sistema organizado de compartilhamentos, como num passe de mágica, quem pesquisasse "Bolsonaro décimo terceiro" veria a promessa em relação ao Bolsa Família e não o suicídio eleitoral de seu vice.

Isso é tecnologia de ponta! Isso elegeu Donald Trump, isso tirou o Reino Unido da União Europeia e elegeu Bolsonaro presidente!

O Bolsonaro sim pode transformar o Brasil numa Venezuela. Porque foi isso que ele defendeu a vida inteira! O PT, você pode não gostar, mas já provou que não transforma o Brasil e nenhuma outra coisa e ainda por cima, com uma forcinha foi tirado do poder... Com o Supremo, com tudo. 

Agora Inês é morta. É pouco provável as investigações sobre Caixa 2 e as fake News deem em alguma coisa. Bolsonaro foi eleito e as instituições deram mostras de que aderiram ao estilo do capitão. A patrulha feita nas Universidades às vésperas da eleição, a inércia do TSE à ressurreição da mentira do "kit gay" no guia eleitoral e o fato de alguém que já disse tudo o que Bolsonaro e seus filhos disseram ter mantido um mandato parlamentar, disputado e vencido uma eleição presidencial mostram que tempos difíceis se avizinham.

Como disse a genial colunista do El País, Eliane Brum, a maior ilusão que se pode ter no Brasil hoje é a normalidade. Está tudo fora lugar. 

Agora teremos um governo com uma agenda de austeridade e completamente anti-popular chancelada por mais 57 milhões de brasileiros. Nos resta torcer para que o condor não ataque.

Paulinho Coelho - Professor, estudante de jornalismo, músico e presidente municipal do PCdoB em Santa Cruz do Capibaribe.

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